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APARAS DE ESCRITA: Janeiro 2002

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terça-feira, janeiro 29, 2002

PINGOS DE LAMA NA PELE II

Entrei na loja, pequena e vazia àquela hora, para pôr o rolo a revelar. A única empregada, jovem acabada de sair da adolescência, terminava uma chamada telefónica. Não tenho por hábito escutar conversas mas ouço-as quando sou obrigado a isso. Era o caso. O silêncio do local limitado a pouco mais do que um balcão, eu como único cliente, a rapariga a metro e meio à minha frente... Ademais, aquele rosto atraiu-me: uma cara triste onde os olhos eram lagos a espelhar uma imensa dor que se espraiava por dentro e não saía, a voz baixa e pesarosa, a dizer de um conformismo que também não tinha saída...
Ouvi: "Está bem... Tens razão... Acho que sim... Até qualquer dia...
E, na minha frente, perante a minha devassa, não querida nem por mim nem por ela mas a ambos imposta, assisti a um adeus que naquele "até qualquer dia" tinha a marca do para sempre.
Desligou e foi esconder-se ao pé da máquina de revelação para chorar à vontade. Nem se lembrou do quadrado de aço que, da parede da máquina, me reflectia aquela imagem desolada, desoladoramente só desde há poucos segundos.
Desviei-me de modo a não a ver.
Apareceu-me mais composta, cabeça erguida, apesar dos olhos irremediavelmente vermelhos e húmidos, donde parecia quererem desaguar enchentes mal contidas para um campo sem luz e despedaçado por temporais inesperados. Mal a encarei; à socapa, espiei-a à procura de um sinal, mesmo que fugidio, onde pudesse encontrar algum conforto para mim mesmo. Maldisse o rolo que me levara lá, larguei-o no balcão, arrecadei não sei onde o talão de levantamento e fugi... Passou-se isto à tarde. São duas da manhã... Não me sai dos olhos aquela tristeza desprezada, aquele sofrimento sem remédio imediato, aquela imagem de medo da noite sem farol... Parar o tempo, voltar lá, abraçá-la, penetrar-lhe a alma pelos olhos com um sorriso sem mácula, dizer-lhe o óbvio - "homens há muitos" - contar-lhe uma história qualquer, uma anedota sem graça que a pusesse, por isso mesmo, a rir. Levantá-la do chão, levá-la a uma nuvem para que visse a Terra sem fazer parte dela, como se o planeta fosse uma bola entre tantas no silêncio sereno, um pormenor na beleza pulsante de vida do Universo. Mas são duas horas da manhã... O meu tempo passou. Não mais a verei. Era o seu último dia de trabalho naquela loja. Não sei para onde vai. Não sei como está. Não vai ser o que era. Dói-me. Eu, que sempre disse não querer arrepender-me do que não fiz, quando chegasse a hora da viagem para a outra dimensão, eu, deixei que o tempo passasse... e nada fiz... fugi...

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segunda-feira, janeiro 28, 2002

MASSACRE VERSUS MASSACRE

A toda a criança que tenha hoje 4 anos, seja ela americana ou afegã, inglesa ou paquistanesa, francesa ou iraquiana, portuguesa ou angolana, ou de quaisquer outras nações, povos ou regiões do planeta, assiste o direito de poder vir a constar na História, quando tiver a minha idade (54),como alguém que conseguiu ser melhor cidadão do mundo do que eu e os da minha geração fomos. Mas isso só é possível se a deixarmos viver.
O terrorismo, independentemente dos objectivos e da bandeira, não é a forma de resolver os problemas de fundo da sociedade actual; do mesmo modo que o não é o ataque indiscriminado e cego a populações inocentes. No quadro de uma cruzada de chacina, esse tipo de ataques visa, em grande parte, apesar das "boas intenções" apregoadas, colher benefícios políticos locais, bem delimitados, tentando acabar "trabalhos" de resultados ainda não totalmente conseguidos, na óptica dos seus realizadores.
A segurança dos cidadãos pode estar em perigo em NY sob a ameaça de suicidas fundamentalistas, islâmicos ou não, e também o estará em Cabul sob a ameaça dos bombardeiros americanos e europeus; mas a divisão do mundo entre os maus muçulmanos e os bons ocidentais, mais do que artificial, é abusiva.
Qualquer atentado à vida é um crime - e o crime existiu. Mas a justiça, por mais tosca e subjectiva que seja, não pode passar pelo aproveitamento emocional, económico, militar, geo-estratégico ou político do próprio crime. A justiça tem de ancorar no apuramento, isento e sem margem para dúvidas, de responsabilidades e de responsáveis, com base na apresentação de provas inequivocamente fiáveis. A não ser assim, o julgamento é uma farsa, uma prepotência, e a injustiça daí decorrente pode conduzir a resultados ainda mais hediondos do que os do próprio crime. Os acontecimentos recentes, para além de crime lamentável, são uma chamada de atenção para a (des) ordem mundial que impera no início do sec. XXI. E, para além da preparação de uma gigantesca operação punitiva que pode durar anos e atingir algumas dezenas de países, conforme foi anunciado (= ameaçado) pelos EUA, não se viu ainda que a comunidade internacional, no seu conjunto, tenha mostrado coragem para reflectir sobre as causas e o significado dos atentados à América - que, de resto, podem estender-se a outros países da parte do mundo que se considera a si própria civilizada. Aliás, a recuperação da ideia, radical e maniqueísta, de que "quem não é por nós é contra nós", alardeada por J. W. Bush, pretende, por um lado, avisar e captar para a sua causa (esfera de influência / dependência) os indecisos ou tíbios; e, por outro, impedir um debate sério sobre os acontecimentos. A exploração emocional levada a cabo pelos meios de comunicação faz o resto. E alguns medea portugueses compram, assumem e difundem a ideia. Ainda recentemente uma rádio, cujo nome omito por decoro, impediu o entrevistado general Loureiro dos Santos de falar sobre "os danos colaterais da retaliação" e de expor o seu raciocínio quanto à "necessidade de ir ao fundo das questões" e de procurar "as raízes que estão na origem do atentado".
A fome, a doença, a ignorância, o desnível entre uma ostensiva e arrogante riqueza de uma minoria e a miséria mortal imposta a uma maioria, o desvio do investimento no desenvolvimento solidário em favor da tecnologia industrial militar, ponta de lança da manutenção de privilégios de elites, é o caldo onde nascem os extremismos, dos extremistas e de quem os acoita - sendo certo de que quem os acoita o faz, muitas vezes, mais por oportunismo do que por uma convicção de afinidades emergentes de uma revolta compreensível.
Para mudar o estado de coisas, pode optar-se por uma política de terra queimada, já de si duvidosa quanto à sua consecução em certas morfologias de terreno, tentar não deixar pedra sobre pedra do outro lado da barricada para, depois, reconstruir com planos de ajuda que permitam manter os princípios defendidos pelas bombas; é o caminho para, em breve, se voltar ao tudo como dantes. Outra via está na mão das maiorias silenciosas: dos que nada têm, logo, nada têm a perder, e dos que, mesmo tendo alguma coisa a perder, pouco ou muito, em bens materiais ou afectivos, preferem não vender a alma ao diabo e podem exigir a discussão do tema, até às últimas consequências, na praça pública, com todos os intervenientes, olhos nos olhos, sem preconceitos nem inibições.
Estarão as maiorias silenciosas interessadas em falar alto? E a praça pública será um espaço livre, ou estará já ocupada pelos blindados (para defesa, claro, de alguns direitos de alguns humanos)?

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domingo, janeiro 27, 2002

AMESTERDAM, MAIO DE 1998


Aí?... Baril?... Vais ficar cagádo despanto, meu!... É o teu Bartolomeu, meu... A velha deu o track e cá o je ... Tás a ver a coisa... foi passar o fim de semana à terra... e já não volta... mas entretantos orientou algum cá pó meco... Não tás a peceber nadecos... Eu depois conto cagora a garina quer dar de frosques e eu tenho quir. Pois é... eu nunca te disse quem era a velha... Pá... o teu Bartolomeu tá em grande... Deixei a merda dos livros e montei um negócio altamente, meu... Quais liambas, quais boi, quais ranço, quais caraças... Pensas baixinho, meu... Aparceu aí um artigo 5 estrelas... Parece aspirina mas é verde... Ouve... O pessoal faz bicha que parece a padaria... Um gajo morfa uma com cocacola e daí a bocado os três pastorinhos parecem os três mosqueteiros... Ouve lá... agora queré responder ao teu batestradas. Atão a chavala não teligou peva... e continuou grudada no caixote a ver a telenovela... Vai comer aveia, meu...Tens a mania qués bófia das almas... Deixavas a gaja ver essa merda. Enquanto fazia isso não te chateava os cornos, meu... Tu andas é drunfado... Toma uma verde quisso passa... Tás a precisar... Mijei--me a rir a ver a tua cara de sacristão e a pitinha a gozar o prato que nem a jaqueline quando o grego esticou... Pá... não fiques chateado... Esta porra é assim mesmo.... Tás a pensar o quê... Dá masé à sola... Aparece aí camalta vai pós copos... Tás a pecisar duma taina e duma ganda bezana, meu... Altamente... Aperta os ossos...
Senhora Dona Sofia, minha Senhora:
Não me atrevo já a chamar-lhe cara amiga, depois do lapso lamentável do envio indevido para o seu endereço de uma carta abjecta que se destinava à minha pessoa. Apesar da explicação não redimir a gravidade do acto, a verdade e a justiça impõem que esclareça que toda esta situação que me tem trazido num inferno se deve à distracção irresponsável da pessoa que trata do meu correio: para minha grande mágoa, nada menos do que um irmão gémeo cuja existência V. Ex.ª desconhecia, de nome Luís, e que recolhi há alguns anos quase por piedade, após ter dizimado em orgias o património herdado de sua mãe, e digo sua porque somos gémeos apenas por parte do meu pai. Não sei como redimir esta falta, sentindo, embora, que ela não tem perdão possível; e o que mais me custa, Senhora Dona Sofia, é perder esta amizade que começava a crescer em fogo brando e que eu tanto prezava, nem sabe V. Ex.ª como... Se há homem atormentado neste mundo, Senhora Dona Sofia, eu o sou...
Não tenho o direito de fazer perder mais tempo a V. Ex.ª com este inergúmeno involuntário; atrevo-me apenas a pedir que, no esquecimento a que me vai votar, não me queira mal... Por mim, procurarei expiar o merecido castigo por excesso de confiança, partindo para onde os olhos puros de V. Ex.ª estejam livres de qualquer funesta contaminação.Um vosso humilde criado,
Srª D. Sofia:
Procurarei não lhe tomar senão o tempo indispensável para repor alguma verdade da pouca que conheço.
Soube por um amigo comum cujo nome não vem a propósito revelar que um mal-entendido provocado por uma carta veio perturbar as relações amistosas que mantinha com meu irmão José. O meu irmão, pessoa de alguma fragilidade emocional, terá indicado o meu nome como sendo autor do embuste cuja extensão, confesso, ignoro. Quero afirmar-lhe que não tenho nada a ver com o assunto, pois desconheço em absoluto as pessoas das relações de meu irmão e não faço a menor ideia do conteúdo das cartas que escreve ou recebe. A gestão absorvente da nossa Quinta não me deixa tempo livre senão para tratar sob pressão dos meus assuntos pessoais. Por vezes, algumas pessoas do círculo do meu irmão não são as mais recomendáveis em termos da exploração que fazem da fragilidade a que aludi acima. Não me custaria a crer poder tratar-se de uma partida de mau gosto, ou, o que seria pior, de alguma artimanha com intuitos não muito claros para mim. Meu irmão sofreu um duro golpe e encontra-se, neste momento, internado numa instituição psiquiátrica. Se, de qualquer modo, puderem os meus préstimos ajudar a sanar alguma situação desagradável, peço-lhe que não hesite em procurar-me.Ao seu dispôr,
P.S. Contrariamente ao que meu irmão insistentemente afirma, somos gémeos por parte da mãe e não por parte do pai.

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sábado, janeiro 26, 2002

SER OU NÃO SER PERFEITO

Atalaia, 8 de Setembro de 1996.
Minha Cara Amiga:
Confesso que da última vez que vi uma telenovela ainda o inventor do tubo de raios catódicos não tinha nascido. Lembro-me de que, nessa altura, os telejornais falavam ainda, com algum desenvolvimento, do rescaldo do desastre do Titanic. Já não são do seu tempo essas televisões: ligavam-se com uma manivela e obrigavam a ter as janelas permanentemente abertas porque trabalhavam a vapor aquecido por carvão ou petróleo. Oiço dizer que a técnica do equipamento, da forma e do conteúdos dos programas evoluiu mas as minhas paixões assolapadas, por pessoas, animais, coisas, ideias, não me deixam disponibilidade física, mental ou temporal para olhar para um caixote falante. De resto, a última que comprei, na excitação curiosa da novidade e do requinte tecnológico, de que sou admirador confesso, jaz virgem a um canto da sala e serve de recreio e reduto de amor a um casal de canários que vive comigo e para quem nunca consegui arranjar uma gaiola condigna para a sua dimensão canora libertária.
Assim sendo, como deve compreender, não sou a pessoa indicada para aquilatar da justeza ou não da sua afirmação quanto ao gosto por telenovelas. E, mesmo que o fosse, tenho por princípio não julgar, apenas analisar para tentar compreender. No entanto, a minha mente moldada pela prática de anos de interrogações, quer por condições do meio em que nasci e cresci, quer pela prática assídua, diria, mesmo, constante, de observação psicológica, não descansou enquanto não procurou obter algumas respostas sobre o assunto. Talvez mais por si do que por mim, porque, afinal, se alguém tem um comportamento que considera defeito é porque não vive muito bem com ele, seja objectivamente, seja devido a pressões do grupo social em que se encontra inserido. Recorri aos bons ofícios de um amigo, perito na matéria, que já não via há muito tempo. Mas a amizade é assim mesmo, não tem tempo nem espaço, e a nossa caldeou-se na mistura de forças atractivas e repulsivas da acção conjunta. Trabalhámos os dois, antes da guerra, no mesmo projecto que visava o aproveitamento da tecnologia bélica à produção de flores. Projecto utópico, dirá. Pior do que isso, projecto condenado ao fracasso antecipado. Afinal, o sistema recuperou-o, sim, mas as flores assim nascidas só se dão em habitat de mármores e granitos lapidares acolhidos à sombra de ciprestes. Separámo-nos com a mágoa da festa que acaba em ambiente sórdido de bordel. Eu, mochila às costas, enveredei pela exploração de caminhos intransitáveis ou de difícil acesso, à procura dum tesouro de que ouvira falar em menino. Ele, mais pragmático e comunicativo, dedicou-se à pesquisa do efeito das palavras banais no bem-estar social. Fui encontrá-lo, mais grisalho e redondo, soterrado em pilhas de alfabetos para mim desconhecidos e símbolos estranhos como cabala. Não vou dizer-lhe do encontro, porque há momentos em que a intimidade não admite devassa, sob pena de ruir o edifício do sentir humano. Mas divulgo-lhe o trabalho que me remeteu algum tempo depois, com o entusiasmo que sempre lhe conheci. Em boa verdade, este trabalho pertence a si, só faz sentido por si, pois por si foi motivado. Devo dizer-lhe que, aqui ou acolá não me parece fazer sentido; mas a verdade é que eu sou um marginal quanto ao tema, enquanto que você, tenho a certeza, não terá dificuldade em descodificar-lhe os meandros, mesmo os mais sombrios e coleantes. Dada a dificuldade referida, optei por transcrever na íntegra o texto que ele me deu, mesmo quando me parece incompreensível. Apelo à sua paciência, esperando que o empenhamento desta dupla, em que sou um apagado interveniente, possa contribuir para o apaziguamento do seu como que remorso social encapotado.Ao seu dispor,
Amsterdam, 1-4-98.
Amigo Farinha:
Passaram quase dois anos sobre o pedido que me fizeste; e não fora o teu empenhamento em ajudar essa tua Amiga, como afirmaste e, mais do que isso, deixaste transparecer (és militante nesse género de prestabilidades arrebatadas desde que te conheço, com tudo o que de bom e de mau já acarretou para ti e para outros - desculpa a impertinência...) e eu teria desistido da tarefa. Pelo tempo que demorei na resposta podes imaginar as circunvoluções por onde o trabalho me conduziu. Mas sei que se a resposta fosse negativa, embora a nossa amizade não saísse beliscada, eu não dormiria uma noite sem sonhar com a tua imagem andrajosa de pedinte de compreensões e relações causais - e, pior do que isso, de corda ao pescoço aos pés da tua Amiga, como um impotente Moniz dos nossos tempos a tentar resgatar assim a honra penhorada. É claro que nunca aprenderás que só deves prometer o que puderes dar... porque contas sempre com as capacidades inesgotáveis de qualquer estrelinha simpática de um beco do Universo. Não me tomes por um moralista caduco. Talvez isto seja a raiva de gostar de ti como tu és, inveja de não conseguir ser assim também, sem remédio para ambos... Como de costume, considera-te desde já isento de agradecimentos, desta vez porque sei que vais estar ocupado a aligeirar a densidade do texto à tua Amiga e a burilar o que sintas ser desagradável para ela, e não quero desviar-te desse teu objectivo...
Escreve duas linhas quando descobrires a palavra disponibilidade no teu exíguo tempo pessoal...
Já acabaste o tal trabalho?... Do resto não pergunto por me parecer inoportuno nesta tua nova missão de humanitarismo...
Abraço-te com o afecto de sempre.
Teu,
APONTAMENTOS SOBRE O IMPACTO AMBIENTAL, EMOCIONAL E RELACIONAL DA TELENOVELA, COM ESPECIAL INCIDÊNCIA NA POPULAÇÃO URBANA CARACTERIZADA NO CAP.XXXIV, FLL 17 A 2789, DO "PRONTUÁRIO SISTEMÁTICO DOS RECURSOS E POTENCIALIDADES DA GEOGRAFIA HUMANA PORTUGUESA", de ELEUTÉRIO BENEVIDES SOCCA, Ed. "PORTUGAL SEMPRE ASSIM", BORBA, 1991.
CAPÍTULO I - (...)
CAPÍTULO II - (...)CAPÍTULO III - (...)
(...)
CAPÍTULO XXVII(...)
"Estudos linguísticos recentes indiciam que expressões captadas na telenovela como 'Puxa, meu amorrrr. Cadê o cafunê qui você próméteu pra mi, quirido?', 'Ôba! Chega p´rá lá... Esse aí é um cara légal, tá?' ou 'À turma deu o fora e caiu na réal' exercem uma influência benéfica no desenvolvimento da língua (embora não necessariamente no enriquecimento da Língua e, muito menos, da portuguesa). Os mesmos estudos referem que tais expressões tendem a fazer descer significativamente os padrões da qualidade do discurso, com a vantagem de tornar esse discurso mais acessível à maioria da população analfabeta, em particular se acompanhado dos gestos e dos guinchos exuberantes e carregados de significado da cultura latino-americana. É, pois, um processo de reconstrução regressiva de tendência infra-niveladora e colorido primário.
(...)
CAPÍTULO LXIX(...)
Uma experiência levada a efeito pela equipa do Prof. Li Xo Thu, convidado da Univ. de Axim Tamal, Botão, sobre uma amostra significativa constituída por 629 mulheres portuguesas entre os 25 e os 35 anos, licenciadas em ciências de raiz alquímica, com funções de liderança técnica, verificou as seguintes ocorrências:
(Grupo experimental, submetido durante três semanas à acção da telenovela brasileira 'Só Saúde')
- transformação dos capilares de irrigação sanguínea cerebral em corpos com a forma e a consistência de tubos de ensaio, retortas e pipetas, revestidas interiormente por algodão em rama embebido em clorofórmio;
- atrofia dos músculos pélvicos com queda precoce das pilosidades adjacentes;
- perda gradual da capacidade discriminativa em relação às cores na gama dos verdes, com especial incidência e agravamento nas mulheres que já tinham história clínica nesse sentido;
- estado confusional que as leva a um abrandamento na auto-disciplina quanto a obrigações a cumprir (atrasos a encontros, jantares, etc.);
- tendência para fazer amizades duvidosas em viagens, nomeadamente cruzeiros, com especial atracção por proprietários (as) de cães e por "Tias";
- propensão mórbida para utilizar cozinhas alheias na confecção de pratos italianos.
(...)
CAPÍTULO LXXXIII(...)
A ocupação do horário nobre televisivo com telenovelas tem contribuído para o apaziguamento de climas tensos em grande número de lares portugueses. Na verdade, durante o jantar e parte do serão impera um silêncio, tácito ou imposto, em todos os membros do agregado familiar, diluente progressivo da oportunidade de discussão dos assuntos importantes pendentes que, deste modo, assim continuam e se perpetuam.(...)
CAPÍTULO CCCXCVIII
(...)
A utilização maciça de telenovelas tem vindo a representar uma contenção não desprezível de saída de divisas. Os cenários, a caracterização dos personagens, o modo de vida, o tipo de casas, o poder de compra estão espelhados com rigor etnográfico tal que escusa qualquer deslocação para conhecer in loco aquele mundo. Acresce a isto o valor como instrumento de gestão política, ao permitir a desmontagem e a denúncia da falsidade daqueles que, movidos por razões subterrâneas menos confessáveis, põem a circular no exterior notícias tendenciosas sobre favelas, assassinatos públicos e diurnos a cadências electrizantes, nichos de fome e de doença, inflação, qualidade de vida.(...)
CONCLUSÃO
(...)
(...) de tal forma que consideramos a telenovela não só um instrumento de conformação social, com todas as vantagens de pacificação que tal acrescenta à governação, mas também um dos mais enriquecedores veículos culturais em múltiplas vertentes e, por isso, aconselhamos vivamente os governos a investir neste tipo de entretenimento televisivo.
Em concomitância com a construção de grelhas que privilegiem um espaço cada vez mais dilatado e de maior faixa de audiência reservados à telenovela, importa promover uma campanha de esclarecimento e apelo da opinião pública de modo a que a telenovela não seja considerada perda de tempo, futilidade, embrutecimento mas, ao contrário, dignificação, relaxe saudável, cultura, higiene mental, conhecimento e solidariedade entre os Povos de que ninguém se deve envergonhar. Em suma, que o simples cidadão seja cada vez mais simples e ostente orgulhosamente ao peito, em destaque, o emblema da telenovela."

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sexta-feira, janeiro 25, 2002

CAIXOTE DE LIXO



Nasci perto do fim dos anos 40.
Até onde as minhas memórias mais arcaicas me deixam chegar, o Outono na cidade era pintado de cinzento triste e os garotos como eu brincavam com barquinhos improvisados nas poças deixadas pelas primeiras chuvas.
No Natal enfeitava-se um pinheiro com pequenas velas de estearina colorida, encaixadas em castiçais de folha prateada.
Em Abril águas mil e, em Maio, as trovoadas afugentavam-me para o canto mais escondido da casa a rezar a Santa Bárbara. O rádio de válvulas gaguejava e tremia como eu quando um relâmpago mais vivo e um trovão mais medonho anunciavam que o mundo ia acabar.
De Junho a Agosto derretia como manteiga ao lume. Pelas janelas abertas ao serão entrava o cheiro a manjerico e a vasos regados de fresco, à mistura com a da lenha queimada nas fogueiras dos santos populares. Dessedentava-me das correrias no pequeno alguidar de alumínio, de lavar as mãos, as bochechas em brasa, mergulhando a boca na água vertida da torneira do contador enorme e negro que marcava os metros cúbicos com badaladas de relógio. Sentia o gozo do animal que, no fim do dia, vai ao lago. Sem afazeres, sem preocupação que não fosse a barriguinha cheia, fruía sestas na varanda de pedra, coberta por um toldo caseiro, feito dum lençol assente ao meio no pau da roupa. À distância, no largo, os eléctricos pachorrentos guinchavam na curva que os levava pela Rua da Palma acima. Era o único som que me prendia à vida e, apesar do sono, dizia-me que o mundo, afinal, não acabara.
De manhã cedo flutuava um cheiro acre mas desempoeirado. As carroças puxadas por cavalos e burros paravam à porta das tabernas dos galegos, com carvoaria ao lado, e recolhiam os restos da véspera em latas e bidões - caldo onde havia de tudo e dava o gosto, hoje perdido, do gado dos arredores.
Nesse tempo, os carteiros subiam e desciam escadas sem elevador porque as caixas de correio estavam ainda na forja. Atrás dos carteiros, os marçanos, de bata cinzenta, carregavam ao ombro canastras apinhadas de mercearia embrulhada em pacotes de papel grosso. Duns e doutros, até um cego sabia que tinham pés...
Nos prédios desconhecia-se o luxo das condutas de lixo. Os sacos de plástico não tinham feito a sua aparição colonizadora. Valia o papel pardo, o papel da manteiga, o papel de jornal que, na maioria das casas, acabavam por ser o higiénico.
As cascas da cebola, da batata e da cenoura, os talos mais duros da tronchuda e as folhas meladas do repolho, as pontas queimadas da alface, as espinhas do peixe, os ossos raspados do boi ou do porco conviviam no caixote do lixo da cozinha até ao entardecer. Moscas mais afoitas chamavam-lhe maná.
Antes de anoitecer de todo, cumpria-se o ritual de levar o caixote à porta. Enquanto os homens, arrotando no palito, davam alpista ao canário, as vizinhas encontravam-se como que na festa das mulheres que vão à fonte e punham no terreiro o que sobrara da tarde da roupa suja.
Latas, latões, caixas, caixotes, de cartão, de folha ou de madeira ficavam à porta do prédio, ao luar ou à intempérie, até que, de manhã, já vasculhados pelos cães e pelos gatos, a carroça do lixo os despejasse para um regresso condigno e disponível à sua imprescindível função. Recolhidos, as lixívias, sem rótulos, sem marcas, purificavam as entranhas. O jornal já lido revestia o interior. Os primeiros restos tombavam.
Era assim. O caixote não passava a noite em casa. O lixo dormia fora, antes do deitar cedo, pouco depois das galinhas, até o galo cantar.
Passaram quarenta anos.As galinhas emigraram. Os poucos galos que teimaram em ficar bocejam já o sol vai alto, perdida que foi a noite na 24 de Julho.
Os eléctricos que restam empatam o trânsito frenético e traquejante.
Os cavalos foram enjaulados em motores com burros ao volante.
As carvoarias fecharam sem deixar traço de fuligem. As tabernas de comida caseira e vinho do pipo são agora snacks e restaurantes de hamburgers e refrigerantes engarrafados e anunciados a peso de oiro. Dos galegos, nem a voz.
Já não há paus de roupa.
As sestas são insónias.
Os garotos não brincam com barquinhos improvisados porque os charcos secaram nestes tempos de seca.
Já não há vizinhas, nem canários, nem homens a arrotar no fim da tarde, com o palito entre os dentes. Escondem-se os palitos e os arrotos por não ficarem bem.
Mas o pior de tudo é que um caixote de lixo agora dorme em casa, não na cozinha mas no lugar mais nobre da sala e / ou do quarto, e não nos deixa dormir. Imperador e tirano, instalou-se. Catedral de plástico e vidro, recebe o culto nunca imaginado pelos santos populares, Santa Bárbara ou qualquer outro da corte celestial. Mente com quantos botões tem. Faz o apanágio das lixívias mas fede por todas as frinchas donde se esgueiram as moscas mais tsé-tsé e os vermes mais rastejantes. A troco de uma obiquidade ilusória de vários canais, imobiliza-nos o corpo amolecido no sofá e reveste-nos de adiposidades concêntricas como as camadas das bolinhas de chocolate que passam sem se dar conta pela goela, à velocidade das imagens na retina. Atira-nos com a sedução dos novos pregões e rouba-nos o poder de discriminação. Indiferente ao gosto e ao desgosto, ao bom gosto e ao mau gosto, atrofia-nos o pensamento e substitui as nossas próprias opiniões. Monopolizador, roubo-nos o precioso hábito de falar. Enfim, hipnotizou-nos de tal modo que ninguém pensa deixá-lo ao luar ou à intempérie até que o carro camarário leve para o aterro todo o lixo que contém.

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quarta-feira, janeiro 23, 2002

FACILIDADES

"Quem quer vai; quem não quer, manda...atestado".
Esta poderia ser uma nova versão do antigo provérbio, agora aplicado à facilidade com que é possível adquirir no mercado um atestado de saúde. Seja para abrir um restaurante, arranjar um emprego, renovar a carta de condução, evitar a tropa, justificar a falta a uma sessão do tribunal como testemunha de um facto ocorrido há três anos, safar-se da estopada da mesa de voto, prolongar as férias ou, até, comprovar uma doença de maior ou menor gravidade, é fácil encontrar um subscritor que dignifique pela sua honra o formato A4.
Mas nem só do médico vive o atestado. O de residência, a garantir que dois cidadãos estão em comunhão de cama e pucarinha naquela Freguesia, permitindo o acesso imediato a um cartão de saúde mais sedutor ou a um hospital com melhores referências, e o de pobreza, na mira da aquisição daquele apartamento que a Câmara disponibilizou para algum menos afortunado, gozam, igualmente, da mesma facilidade de obtenção.
E, neste país de clima e hábitos amenos e sol encantador, as facilidades não ficam por aqui.
É fácil arranjar um cartão de crédito bancário, outro da sapataria, outro do hipermercado, outro, ainda, do armazém que vende alumínios, loiças, plásticos e acessórios de casa de banho. Para não ir mais longe, todos contribuem para facilitar o endividamento progressivo do seu possuidor, a ponto de o subsídio de férias somado ao do Natal já não chegarem para pagar a despesa.
Endireitar a vida com o bambúrrio dum jogo de apostas é fácil, como diz o próprio refrão publicitário.
Ficar, de repente, com um automóvel nas mãos, saído, como por magia, dum pacote de detergente ou a troco de meia dúzia de disparates e outros tantos vexames num concurso televisivo, é o mais fácil que há; e se o sortudo não tiver carta, verá como é fácil arranjá-la - há poucos anos, até um Cônsul português em França as vendia sem delongas, embora não fosse por dez reis de mel coado.
Nos transportes, as facilidades apresentam um vasto leque de opções. Assim, de comboio, é fácil chegar ao destino com um atraso digno duma descrição queirosiana, porque caiu uma catenária, uma vaca foi atropelada ou o mercadorias obstruiu a linha numa arrastada manobra de engate. É fácil ter de permanecer mais um dia ou dois no hotel porque o número de passageiros não justificava o voo e uma providencial complicação técnica ou climatérica reteve o avião em terra. No metro, as facilidades vão desde o ser apalpado até ser roubado, passando pela corrida desenfreada a uma alternativa por avaria da composição. É fácil, ainda, no mais primitivo e saudável meio de transporte que é o pedestre, ser interceptado por umas centenas de quilos de lata e aço, vidro e plástico, borracha e alumínio numa qualquer passagem para peões. E, por falar em andar a pé, é fácil ouvir buzinar atrás de nós quando, pacatamente, no passeio que nos é destinado, alguém cheio de pressa e afazeres procura arrumar o carro nesse mesmo passeio. Para quem trabalha na construção civil, é fácil cair dum andaime ou ser enterrado vivo, do mesmo modo que é fácil levar com uma trave na cabeça porque o capacete guardado estraga-se menos.
Para quem trabalha por conta de outrem, seja onde for, é fácil não ser promovido se afrontou, mesmo só em pensamento, e o pensamento trai-nos, a mediocridade do chefe. Quanto a ser despedido, a facilidade vem estampada na imprensa diária. É fácil descontrair no fim do dia, nas mãos e noutras anatomias de uma ou de várias competentes, ternas e jovens massagistas. É fácil enriquecer o vocabulário se, às duas da manhã, um vizinho mais espontâneo tenta avisar da janela o dono do automóvel que tem o alarme a tocar há meia hora.
É fácil resolver de imediato todos os problemas da vida por falta de pessoal na urgência ou / e porque os equipamentos funcionam mal, se é que existem. É fácil contratar um contabilista hábil que ponha a escrita em dia a nosso favor.
É-nos fácil, congenitamente amnésicos, esquecer as sumptuosas fraudes e os magníficos escândalos gerados pela mãe corrupção no húmus quente das esferas do poder. E fácil é esquecer, também, a promessa do destino do voto quatro anos depois.
É fácil manter a companhia das crianças até terem quase trinta anos, porque não há empregos, ou não há casas acessíveis ou, mais frequentemente, não há nem uma coisa nem outra.
É fácil levar com uma bola maciça num olho quando se apanha sol na praia, porque o matulão que se exibe para o grupinho de bronzes não reparou que a densidade no areal é de três banhistas por metro quadrado. É fácil perceber que aquela família de turistas nos visita pela primeira e última vez, porque o esplêndido complexo de férias do catálogo colorido ainda está nos caboucos.
É fácil prescindir de jantar fora, mesmo naquelas ocasiões especiais; para tanto, basta acompanhar a autoridade sanitária nas inspecções às cozinhas de alguns restaurantes.
É fácil proporcionar aos garotos a inesquecível experiência duma intoxicação alimentar, desde que eles estejam no infantário certo, na creche certa ou na escola certa.
É fácil apontar, por esse país fora, árbitros que usam luvas, tanto de inverno como de verão.
É fácil encontrar um Comendador num raio de quinhentos metros da nossa casa; tão fácil como encontrar cinco potenciais Comendadores num raio de cem metros da nossa casa.
É fácil deparar com uma telenovela, seja a que horas for, pelo menos num dos canais nacionais disponíveis.
Se, para alguns, é fácil matar de uma cajadada dois coelhos, para a maioria (vivemos em democracia) é ainda mais fácil matar um coelho com duas cajadadas.
É fácil fazer anedotas neste país de humor negro.
A lista não acaba aqui, todos o sentimos. Poderia continuar o testemunho, linha a linha, página a página, resma a resma, de casos exemplares deste paraíso de facilidades. Apesar disso, de quando em onde, aqui ou acolá, somos surpreendidos pelo desplante de alguma voz contestatária. Não é de conceder grande importância, pois há sempre ervas daninhas nos relvados, por mais cuidados que sejam. Mas, se calhar, o que nos faz falta é uma ou duas dificuldadezitas para sabermos o que elas custam e para darmos o justo valor a quem se esforça por nos trazer resplandecentes de felicidade. E, para esses, a minha gratidão e que Deus os conserve.
- De preferência em formol.
- O quê?...
- Não é contigo. Estou a preparar um trabalho científico.
- É difícil?...

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terça-feira, janeiro 22, 2002

A ESCREVER A GENTE NÃO SE ENTENDE



Escrever, por mais informal que seja o objectivo, aconselha a que se tenha cuidado, quer na forma (para que nos consigam ler), quer na construção da própria palavra (ortografia).
Por razões que me parece não precisarem de explicação, quem se dirige a desconhecidos ou expõe ao público por meio da escrita tem um acréscimo de responsabilidade, e daí que o necessário rigor obrigue a uma especial atenção. Permitam-me que destaque alguns exemplos do quotidiano, exemplos triviais que reflectem o desconhecimento quanto aos preceitos da nossa Língua.
"Pudim françês". Assim mesmo, com a dispensável e irritante cedilha que escapa por contaminação da palavra "França", é frequente encontrar-se em ementas de todos os preços e géneros. Dei com uma num hotel de quatro estrelas, no Porto, e numa pizaria, em Lisboa.
"Estado cívil", em vez de "civil", por semelhança com "cível" (relativo ao direito civil), lê-se em dezenas de cartas de candidatos a emprego que, deste modo, se apresentam logo com uma má imagem.
Nas obras em curso na estação do Rossio, Lisboa, há um cartaz no tapume do estaleiro com o aviso de que "é proíbida a entrada a pessoas estranhas á obra" - outra dança de acentos, desta vez um a mais e outro ao contrário, respectivamente.
Por sua vez, quem desce a Rua Garrett, também em Lisboa, fica estupefacto com uma faixa de pano a todo o tamanho da frontaria dos antigos Armazéns do Chiado que elucida o transeunte sobre o aproveitamento do espaço que está a ser recuperado: "25,000 m2 de escritórios e restaurantes". Tal e qual - vinte e cinco vírgula zero zero zero metros quadrados, ou seja, vinte e cinco metros quadrados destinados a escritórios e restaurantes. Sabendo que esta área corresponde a um quadrado de cinco metros de lado, assusta-nos a tendência mórbida para reduzir cada vez mais o espaço físico destinado a cada cidadão. É verdade que todos nós já estagiámos para mini-micro na generalidade dos transportes colectivos, em número suficiente de praias, em bastantes apartamentos, em demasiadas casas de comida. Mas isso não basta para podermos imaginar quantas pessoas (e como) vão caber em escritórios e restaurantes que, no conjunto, ocuparão vinte e cinco metros quadrados... E, já agora, é lícito perguntar qual o destino que será dado à restante superfície dos referidos Armazéns. A não ser que os tais "25,000 m2" tenham a vírgula a mais, na imitação tola do que fazem os Americanos por razões que a eles dizem respeito...
Voltamos às ementas, desta vez desenhadas em toalhas de papel coladas nas esquinas ou nos vidros das portas, e reparamos no "cozido há portuguesa" que literalmente significa "cozido existe portuguesa", isto é, não significa nada. Noutra versão disponível oferecem-nos "cosido à portuguesa"; não espanta, nesta sociedade de diversificação da venda, encontrar em restaurantes produtos confeccionados com agulha e linha, como indica a palavra "cosido" com "s".
Enquanto se vai escrevendo assim o Português, as paredes enchem-se de frases anglo-saxónicas, das obscenas (geralmente bem escritas) às mais puras, como "Isabel love Carlos"; esta é uma expressão tradicionalmente mal escrita, em que a falta do "s" em "love" conduz à tradução sem sentido "Isabel amor Carlos".
Não defendo a benevolência de aceitar que se escreva incorrectamente nas Línguas estrangeiras. Seja em que Língua for, a oração deve expressar de forma tão perfeita e fiel quanto possível a elaboração do pensamento. Mas se nos outros idiomas se pode perceber e justificar alguma menor exactidão, na nativa escrever com aprumo é dever de cidadania. E isto nada tem a ver com estilo rebuscado nem com palavras "caras".
Lembro-me sempre de um aviso em letras gordas pintadas num muro de Vila Nova de Cacela, povoação entre Tavira e Vila Real de Santo António: "É proibido mijar contra esta parede". Simples, gramaticalmente irrepreensível, poderá não ser de salão mas serve os objectivos em Português escorreito, sem duplicidades, e fere menos do que adromecer em sima da cela qoando ce ânda a cava-lo.

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segunda-feira, janeiro 21, 2002

JOGO DE PALAVRAS


Dizer que a língua portuguesa é muito traiçoeira pode ser apelidado, simultaneamente, de lugar comum e de acabado disparate. A traição, se existe, não será imputável à língua mas ao utente que, recorrendo de forma habilidosa à riqueza do léxico e à versatilidade das conotações, distorce, a par e passo, se quiser, o significado da expressão, para deleite de alguns e desespero de outros menos avisados. Este jogo, sob uma capa de desregramento e diluição de limites, possui, no entanto, normas próprias, como jogo que é, e de que destaco, à cabeça, a coerência do discurso e o efeito do imprevisto. Por outro lado, ainda como jogo, o sentido lúdico está sempre presente sob a forma de humor, seja ele inócuo ou carregado de crítica (e aqui intervém a presença ou a ausência de sentido de humor do outro).
Convido-vos a um passeio, em tarde de calor pesado, por uma mata fresca de exemplos.
Segunda-feira de manhã, contrariado pelo fim do fim-de-semana, encontro já sentado ao terminal a colaboradora mais jovem e mais esplendorosamente torneada do serviço. Dada a diferença de idades, permito-me saudá-la com um "está boa, meu bem?". Sorri-me de tal forma que não sei o ano em que nasci. Mas se lhe dissesse "está bem, minha boa?", o mais provável é que disparasse para o gabinete do chefe para me acusar de assédio. Bastaria uma reordenação das palavras, das mesmíssimas palavras na frase para que a semana começasse mal. Se o meu colega diz que "tem ar de boneca", refere-se à dactilógrafa de pele leitosa, bochechinhas rosadas, longas pestanas por cima dos olhos claros que se move com a cautela adequada à sua fragilidade geral. Mas se a observação for "tem boneca de ar", sei que fala do director cinquentão, solteirão, amante de uma insuflável comprada num sex shop de Hamburgo. Espreitar pelo "rabo do olho" não é crime, nem na acção, nem na linguagem coloquial. Mas se, em público, alguém falar no "olho do rabo", é mais que certo que a sua época de festas acabou, pelo menos enquanto esta expressão não estiver in. "Feito de pau" pode ser um valiosíssimo Santo António dum século passado, mais valiosíssimo, ainda, se for de data anterior ao seu nascimento, numa exposição da capital da cultura. A alternativa, que deixo ao vosso cuidado, não tem a ver com o santo milagreiro, a não ser, talvez, indirectamente, com as bilhas de que fala a tradição popular. "O vizinho da cadela" é aquele major reformado do 5º C que, disciplinadamente, às seis em ponto, leva a bichinha à rua para o alívio matinal. Mas já "a cadela do vizinho" pretende tranquilizar a minha companheira, a meio da noite, do chinfrim provocado pela tremenda bebedeira do tipo do andar de cima. Amélia é uma menina católica, apostólica, romana que tem um confessor habitual, conhecido na família como "o padre da Amélia". Ao contrário, "a Amélia do padre" atira-nos para o inferno do index de que se ri o nosso querido Eça. Se tem um cavalo lustroso, nervoso, garboso, é natural que o seu amigo pergunte quem é "o veterinário do cavalo". Contudo, se, apesar da avença, o animal deixou de dar ao casco, dirá, aposto, que a culpa foi "do cavalo do veterinário". "A rainha do coiro" é, verosimilmente, uma loja perto da fronteira sul onde podemos encontrar toda a espécie de cabedais transportados de Marrocos. Quanto ao "coiro da rainha", para não ferirmos susceptibilidades estrangeiras, falemos da nossa, uma tal de Telles que vendeu a alma ao diabo, o corpo ao Andeiro e venderia Portugal aos Espanhóis se não fosse o arraial armado pelos Portugueses de boa têmpera daquele tempo. "Tomates de produtor", sem pesticidas, sem corantes nem conservantes, dão outro gosto à salada. "Produtor de tomates" é uma figura que dá outro sabor à contestação da política agrícola. "As coxas da campeã" dos não sei quantos metros barreiras, o seu modelado, a sua elasticidade, os seus contornos, o sombreado que cria relevo, apesar de tudo, feminino, o desejo de as tocar, de preferência com as minhas, mantêm-me acordado frente à televisão. "A campeã das coxas" liberta-me bocejos na vitória duma qualquer obscura equipa da 5ª divisão sem honra. "Tem vinho mau", o Zé da Adega; um martelão em que entra tudo menos uva. E, ainda por cima, "tem mau vinho", a avaliar pelo olho negro da Felícia (a que lhe pariu os sete filhos) no dia a seguir ao clube da terra ter perdido. "A sueca do grupo" é a nórdica loiraça que sobressai do grupo internacional à procura de cacos e fósseis no monte. "O grupo da sueca" é, por seu lado, um conjunto de fósseis a escaqueirar o que resta da política à portuguesa. Num 10 de Junho, a acompanhar uma medalha por feitos nunca vistos, ficaria bem aplaudir a Senhora de Fulano e Beltrano como "a filha desta mãe pátria", ainda que "a pátria desta filha da mãe" nos conduza à Inglaterra dos tempos da dama de ferro, e a exclamação "a filha da mãe desta pátria" mobilize os nacionalistas numa desenfreada caça às bruxas e às medalhas. "A prima do outro" referencia um grau de parentesco numa conversa informal entre famílias. "O outro da prima" revela que a priminha tem mais um, seja lá o que for. "O corno de África", como área geográfica de conflito, tem sido objecto de grandes reportagens. Quanto à "África do corno", bom, há coisas que são de todos os continentes e deixemos o assunto por aqui. "O carro do lixo" aparece, felizmente, todos os dias na minha rua. "O lixo do carro" também, infelizmente, e lava-me porco é a maneira cordial que os vizinhos têm de me alertar para o facto. "A troca de ideias" é indispensável numa sociedade democrática. "A ideia das trocas" é aflorada por alguns casais mais pornocráticos. Se é verdade que "o polícia do cão" impõe algum respeito, "o cão do polícia" traduz alguma animosidade para com a lei à cacetada. É pela "menina dos olhos" que nos extasiamos nos "olhos da menina". "O marido da viúva" vive agora à grande e nem o cheiro do suor do defunto impede os suspiros e os gritinhos de prazer. Da "viúva do marido" há algumas dores daquilo de que se falou atrás e está no norte de África como em toda a parte. "O regresso do filho da mãe" tanto pode ser o título dum Vilhena dos anos 60 como de uma ode a qualquer D. Sebastião. "O filho da mãe do regresso" contempla, invariavelmente, o fim das férias.
Dado que foi o passeio por esta terra fértil da língua portuguesa, vamos beber uma sede de água limpa, que aquela aperta, esta escasseia e a língua está viva.

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domingo, janeiro 20, 2002

E-MAILS PARA OBTER FAVORES DE FONTE NÃO REVELADA


Periodicamente recebemos, via e-mail, apelos a espalhar um determinado número de mensagens pelos amigos, colegas e conhecidos, a fim de usufruirmos de um favor especial por parte de entidade não identificada - mítica, mística, supra-existencial, divina..., sabe-se lá... Aliás, a fonte de satisfação do prometido nunca é referida, não vá ser preciso pedir-lhe contas por incumprimento... Muitos anos antes de a informática estar vulgarizada e disseminada como agora, apelos semelhantes chegavam às nossas caixas de correio para que, através de cartas e, mais tarde, com o avanço da tecnologia, de fotocópias, divulgássemos a mensagem, com a esperança / promessa de, na volta, recebermos aquilo com que éramos aliciados: dinheiro, saúde, amor ou uma sorte inesperada, inusitada e inespecificada... Quem cortasse a corrente tornava-se um pobre de Job, um doente incurável, um cônjuge infidelizado ou objecto de qualquer catástrofe que, por vezes, saía do foro pessoal para se instalar, no todo ou em parte, no agregado familiar. Não sei se alguma vez isso contribuiu para o aumento da venda de papel de carta (e tudo o que lhe está referido, como tinta, canetas, selos) ou da produção de fotocópias mas, a ser assim, alguém, de facto, tinha razões para se sentir feliz, pelo menos aquando da corrida à sua capelista, mais tarde equipada com fotocopiadora e elevada ao estatuto de papelaria... O objectivo é o mesmo, embora a "fotocopiadora" seja de outro tipo - isto é, proporcionar, talvez de uma maneira mais rápida e económica para alguém, alguma felicidade. Diga-se, sem cinismo, que é meritório tal objectivo... Porém, o método é tão primário que até aqueles que, por superstição, não são supersticiosos dão imediatamente pelo logro. Não obstante, continuam a chegar mensagens assim, seja a que terminal for onde possamos receber um texto de correio electrónico com o nosso endereço.
Recentemente apareceu uma no meu monitor que me propunha o envio de dez cópias a outros tantos utilizadores, em troca de, daí uns dias, ter sexo e mais sexo na minha vida, sem saber para onde voltar-me. Receberia, dentro de pouco tempo, a visita de uma mulher voluptuosa (também prometiam, em alternativa, um homem viril mas suponho que essa gratificação se destinava, preferencialmente, a senhoras que respondessem). Em contrapartida, se não o fizesse, correria sérios riscos de ser castrado, ficar impotente, remeter-me à angustiante situação de observador passivo para o resto da vida.
Independentemente de se saber como se mede o grau de voluptuosidade e de como essa qualidade está presente e satisfaz a minha vida, revela uma fase paleolítica do desenvolvimento pessoal acreditar que a Felicidade reside, apenas e principalmente, no "sexo à fartazana", como dizia a mensagem que me foi enviada. O sexo, e muitas outras coisas boas na Vida, não vem até nós através de fotocópias ou e-mail, e isso pela simples razão de que o sexo reside na caixa craniana de cada um e não meio metro mais abaixo como muita gente e muitas vezes se julga... Agradeço, em todo o caso, o ensejo que tal e-mail proporcionou de alinhar as presentes considerações.

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sábado, janeiro 19, 2002

PINGOS DE LAMA NA PELE


Aproveitei a boleia de um dos meus irmãos, num dos seus intervalos de visitas médicas, para ir a um centro comercial, perto de minha casa, mandar colocar um vidro que se partira num quadro de grande estimação para mim. O tamanho do quadro justificava o automóvel. O conhecimento da casa onde a obra seria executada justificava o centro comercial.
Àquela hora da manhã o movimento no centro era ainda diminuto.
Na loja, galeria de pintura e escultura e, simultaneamente, centro de encomendas para reparações e emolduramentos, frente ao empregado apenas um cliente, uma mulher de menos de trinta anos, presumi. Pelo ar resignadamente paciente do vendedor e o espalhafato em cima do balcão, uma mistura de caixilhos, cantos e passe-partout a mulher já lá se encontrava há um bom bocado.
Do aglomerado confuso saltavam duas fotografias, formato 30 X 24, aproximadamente, de um bebé de poucos meses, naquela mais que vista mas sempre repetida posição de lagarto em que é costume fotografar as crianças daquela idade: nu, bracitos esticados, a mal suportar o peso do meio tronco soerguido, cabecita cai que não cai, olhos espantados, a ver não se sabe o quê.
Acontece que estou a fazer um curso de fotografia onde reavivo práticas e, principalmente, conceitos. Na escola de artes onde o frequento, insiste-se muito num princípio que me é caro: o do respeito por quem se fotografa e pelo trabalho daquele que fotografa, seja profissional ou amador.
Reparei melhor nas fotografias, expostas entre cartolinas e réguas de madeira sobre o balcão. Para além de banais, banalíssimas, eram francamente más, a ponto de me apagarem da memória imediata o tal respeito devido aos resultados conseguidos por terceiros com uma câmara na mão. Nunca teriam merecido da minha parte ampliações e, muito menos, caixilhos. Uma delas tornava a criança estranhamente vermelha, como que retirada recentemente de um forno; a outra, na mesma pose, projectava o garotinho numa superfície de azuis lisos e frios que metia dó. O meu irmão, antes de se afastar para apreciar os quadros expostos, deitou-me um olhar, a que eu correspondi, olhar de "mal empregado tempo e dinheiro" com aqueles mamarrachos de que a criança era o único inocente.
Observando-a por detrás, a três quartos, aguardei, com alguma, embora meio contida, agitação, que a mulher continuasse a escolher molduras e cartolinas, na esperança de que fosse breve a decisão e pensando, cá para comigo, se haveria enquadramento físico possível para tamanha monstruosidade fotográfica.
De repente, o vendedor perguntou-lhe, sobressaltado, "a senhora está a sentir-se bem?". O meu irmão e eu aproximámo-nos para ver o que se passava. Ela estava hirta, muda, fixa nos retratos. E, sem uma lágrima, "isto são fotografias do meu filho que morreu há um mês".

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sexta-feira, janeiro 18, 2002

DORNES, PORTUGAL (CADERNO DE VIAGENS)


Buzinas festivas em cortejo.
- Outro?... Fazem bicha...
- Então... Hoje eram três...
- Em tua casa vai também haver um, qualquer dia.
- Pois vai. Mas ele ainda tem de ir lá pedi-la ao meu pai. É assim... à antiga portuguesa.
- Eu também gosto assim. Mas o meu homem é mais moderno e não liga a essas coisas...
As três mulheres que entabulam esta conversa estão sentadas perto da minha mesa.
...a crónica ...

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