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APARAS DE ESCRITA: Outubro 2002

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terça-feira, outubro 29, 2002

LULA DA SILVA, PRESIDENTE

Muito foguetório, música e caravanas automóveis têm comemorado a eleição de Luís Inácio Lula da Silva (candidato do PT - Partido dos Trabalhadores) para Presidente da República Federativa do Brasil.
A noite de 27 para 28 de Outubro foi de festa e o dia de hoje continuou a ser, tanto mais que, "dia do funcionário público", no Brasil a maior parte dos serviços está fechada por tolerância de ponto.
Com tomada de posse marcada para 1 de Janeiro de 2003, o ex-metalúrgico (torneiro mecânico) que fez 57 anos no dia das eleições (27 de Outubro) vinha concorrendo desde 1989 às presidenciais. Apresentando um discurso mais moderado do que em anteriores candidaturas e uma estratégia de campanha bem elaborada, venceu na segunda volta (61,3% dos votos) o candidato do poder actual, José Serra (38,7% dos votos).
Cerca das 14 horas de hoje, em conferência de imprensa onde os jornalistas (mais de 400, entre nacionais e de 40 países estrangeiros) não puderam fazer perguntas, proferiu o primeiro discurso como presidente eleito.
Na transmissão integral e directa pela televisão e pela rádio, sublinhou algumas linhas mestras para o seu mandato: combate imediato à fome (pelo menos três refeições diárias para todos os brasileiros) e criação de uma Secretaria de Emergência Social que coordenará as acções nesse sentido; geração de mais emprego, aumento das exportações (tanto de produtos manufacturados como de produtos agrícolas), melhor distribuição dos rendimentos; luta contra a droga e o banditismo em geral; aumento dos níveis de instrução, extensiva a cada vez maior número de pessoas; políticas económicas e fiscais que reduzam o distanciamento dos mais carenciados, desfavorecidos e oprimidos; destaque maior para o papel no seio do MERCOSUL, que pretende vir a ser um equivalente, na América do Sul, à EU; emparceiramento com outros países na redução do desnível entre países ricos e pobres, com uma crítica aos USA pelo seu proteccionismo exacerbado; enfim, prometeu ser o presidente da mudança, pedindo, no entanto, paciência aos que gostariam de ver tudo feito num dia. "Não há receitas milagrosas para tamanha dívida social", disse.
No discurso tocou, afinal, nos principais problemas que afligem o país, tal como era previsto. Grandes linhas de rumo mas sem planos concretos revelados.
Mais de metade dos cerca de 100 milhões de eleitores (num país com 170 milhões de habitantes) confia nele. Os outros, ou não confiam ou esperam para ver. Mesmo assim, o resultado nas urnas revelou ontem o desejo de mudança dos Brasileiros por uma vida melhor, mais justa, mais digna, mais gratificante, de que Lula da Silva é o arauto assumido e comprometido.
Apesar das enormes e inequívocas potencialidades do país, a tarefa não será fácil e, se calhar, nem facilitada. Perspectivas diferentes com peso no cenário político, heranças dum passado menos recente e mais recente, alianças partidárias e conjuntura internacional poderão contribuir para uma menor compreensão e paciência do eleitorado, factos que a oposição não deixará de cobrar alto, tanto mais que, ao longo da campanha, ela tentou fazer passar uma imagem de incompetência de Lula por este não possuir um diploma universitário. A isto, Lula da Silva sempre respondeu: "Provarei que um torneiro mecânico pode fazer o que as elites não fizeram". Nisto acreditam, pelo menos, 52,5 milhões de Brasileiros.

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sexta-feira, outubro 25, 2002

PERCEBER

-Escreva a primeira frase.
-Já está.
-E agora?-Pois é... Difícil o continuar. Ou difícil o começar que é um continuar outra vez, um continuar de novo, um esgotar aquele intervalo de não saber como recomeçar a imposição que assumimos, imposição tanto mais tirana quanto mais é nossa.
Como disse Haroldo Maranhão, do Brasil, "inspiração é camisa suada". Foi nessa necessidade, nessa suada, que me dei conta de que a lama se escondia por debaixo das folhas das videiras, aliviada em mais uma vindima. Recomecei, rotina, em novo Inverno, a queimar fundilhos de calças para fogueiras que não me aqueceram; fogueiras que fugiram pós chaminés de postais, ilustrados, coloridos duma realidade que não há, paga ao peso do oiro que se vende para comprar a coleira ao preço doutros artigos de lixo - não de luxo. Nunca aprendi tal fumo, mesmo branco, nem as chaminés da mesma cor. Nem aprendi as queimadelas do borralho fugidio. Concluí que sou um psicopata ou, se melhor, menos socialmente comprometedor para os amigos, os professores, os familiares, os patrões, os cobradores de impostos, os alfandegários, os outros todos, sem esquecer os governantes à minha custa de impostos, um analfabeto social. Quero dizer, não sou capaz de fazer leituras das tramóias que leio e oiço em todo o lado. No entanto, resta-me uma consolação: sei, porque vejo, que a lama se esconde por debaixo das folhas das videiras, aliviadas por mais uma vindima.

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TESTES

Tenho o futuro à minha frente. Não estou a falar de mim mas dos rapazes e raparigas que vieram de várias zonas do país, todo o país, à procura de melhor sabe-se lá o quê, e que tentam provar que são os mais indicados para o desempenho de determinadas tarefas. Para alguns deles, os testes psicotécnicos com que jogam agora à cabra cega desempenham o papel de melhores aliados ou piores inimigos, conforme o que sintam no momento em que enchem a folha de respostas e, mais tarde, os resultados que venham a obter; para outros, novos ou velhos privilegiados, os testes são um ritual necessário para que a "recomendação" do pai, do padrinho ou do amigo se possa esbater no seu curriculum interior, sem resíduos de mancha de apropriação do mérito alheio, de competição desleal e, muitas vezes, de indício de incompetência e de incapacidade irremediáveis.
A "recomendação", com todos os outros crismas com que tem sido ungida, como "empenho", "favor", "pedido" ou, mais prosaica e significativamente "cunha", é um monumento nacional, o que explica a sua intocabilidade antes, durante e depois da referência histórica 25 de Abril. Um monumento nacional que configura a nossa preguiça inventiva para moldar a escassez de certos recursos materiais, o comodismo de mão estendida aos créditos a fundo perdido, o conformismo às dependências externas, o estilo mercantilista das relações interpessoais, o espírito corporativista das famílias e das amizades. Nunca houve a preocupação de procurar um remédio que pusesse fim à praga, bem pelo contrário. Na monarquia e no partido único, há que salvaguardar os princípios, leia-se privilégios, em boas mãos - a "cunha" permite perpetuar os modelos de pensamento nas organizações, públicas e privadas, e as regalias sociais no seio das famílias; na democracia, a partilha de poder obriga à prestação de favores e à respectiva cobrança de facturas, de parte a parte. E é assim que a sobrevivência da "recomendação" parece assegurada. O silêncio à sua volta reflecte o interesse em que não se fale dela, para a manter operante até ao limite da discrição permitida pelo grau de descaramento dos intervenientes; ruído que não chega a ser barulho consequente e que se percebe, por vezes, entre dois bocejos traduz alguma traiçãozinha palaciana de promessa não cumprida em benefício de um concorrente, ou a colisão de "cunhas" de intensidade diferente que faz explodir de raiva o perdedor - perder, nem a feijões e, muito menos, às cunhas - a quem resta, como resquício da dignidade que conhece, a denúncia despeitada do gesto que, a reverter em seu favor, o tornaria num assumido e militante lambe botas (se acaso o não é já).
Assim vão vivendo cunhistas e cunhados, que o mesmo é dizer padrinhos e afilhados, na visão tacanha de que, afinal, a coisa funciona... A coisa, a "cunha", funcionar funciona quando há chão para isso. Mas deixando de lado os casos anormais, quase patológicos, de integridade, por quanto tempo funciona? Funciona no imediato, que é o que interessa às comezinhas intenções cujas estratégias assentam no "agora já está, depois logo se vê". E, nesta perspectiva, a "coisa" começa a minar a sua própria segurança, em particular quando é manifesta a incompetência do indivíduo. Enquanto se mantiver a influência protectora do agente directo ou do agente intermediário da "cunha", o lugar, o privilégio, seja o que for, estará garantido. Mas, quando um destes elementos falhar (ou os dois, o que se torna catastrófico), várias coisas podem ocorrer, em separado ou em simultâneo. Assim, se o protegido se mantém no lugar inicial onde não conseguiu deixar de afirmar a sua incompetência e se, para além disso, acumulou alguns rancores decorrentes do relacionamento com os outros, vai estar sujeito a toda a espécie de acções de retaliação, quer por parte dos colegas, quer por parte das chefias (para quem, geralmente, um "pára-quedista" é uma ameaça ao lugar ou um entrave para um outro seu protegido); as avaliações de desempenho passarão do máximo para o mínimo; os atrasos, dantes encarados com a bonomia de um "Ó Sr. Fulano, por quem é..." (por quem é o seu padrinho), passam agora a um seco "Veja lá se começa a levantar-se mais cedo!"; dispensado de um departamento, não é aceite por outros ou, se imposto, resta-lhe executar as tarefas que os colegas não querem; vá para onde for, estará sempre sujeito aos cochichos, piadas e sorrisinhos, em que o chefe alinha, com o rótulo que nunca mais o abandonará - "este é o cunha de tal"; no pressuposto de que a sua fonte de influências secou e se não tiver possibilidade de se despedir e não for, entretanto, despedido, percorrerá vários serviços, sempre em funções desagradáveis, até cristalizar numa carreira de insucesso e de frustrações que é uma das causas do mau viver em casa. Para os que conseguiram guindar-se, ou ser projectados, para lugares de confortável segurança, a quebra da sustentação inicial não apresenta um risco tão elevado, principalmente se souberem manter um perfil discreto, sem ostentações; no entanto, não estão isentos de alguma perseguição ("mudam-se os tempos..." ou "não perdes pela demora") nem das intrigas e dos comentários menos abonatórios de bastidores. Quanto aos que são (e já eram) competentes, a "cunha" serviu para garantir o acesso a determinada posição sem ter de passar pelo desconfortável esforço competitivo entre um leque alargado de candidatos, porventura com elevadas capacidades. Os custos para as Organizações não fazem parte da contabilidade do processo, o que não quer dizer que não existam - e de forma pesada: sustentar um elemento cujo trabalho tem de ser feito ou corrigido por outro, ou outros, sai caro; gerir guerrilhas internas, por mais santas ou diabólicas que sejam, sai caro; ter indefinidamente em casa, com baixa médica, um elemento que descompensou por inadaptação, sai caro; recorrer a sucessivas acções de formação para corrigir o incorrigível, sai caro. São estes alguns dos custos que as empresas têm de suportar quando não podem, não querem ou não sabem ser refractárias às "cunhas".
É claro que esses encargos, directa ou indirectamente, acabam por nos cair em cima, em cima de nós, cidadãos, contribuintes, preocupados ou não em ter os impostos em dia. Como no universo, tudo o que se passa na mais pequena e longínqua empresa portuguesa vai afectar, mesmo que, aparentemente, não se dê por isso, todos e cada um dos portugueses.
Mas o português aprendeu a respeitar, a bem ou a mal, as instituições, mesmo que muito mal alguma delas lhe faça. É quase uma relação masoquista. Como não respeitar, então, ou, pelo menos, acatar a "cunha", sendo ela uma instituição excelentíssima?
Na pessoa destes rapazes e raparigas que aqui estão a submeter-se a testes, tenho o futuro à minha frente. E 75% desse futuro é "recomendado"...

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sábado, outubro 19, 2002

UM DIA COMEMORATIVO

Dentre todas as espécies conhecidas, somos a única comemorativa ou, pelo menos, aquela que, com alarde ou modéstia, manifesta as suas comemorações.
Para além disso, tudo nos serve de motivo de comemoração, envolvido no mesmo prazer, nos mesmos abraços, nas mesmas lágrimas, no mesmo crepitar de copos e garrafas.
É assim que comemoramos vitórias e derrotas, sucessos e fracassos, fortunas e misérias, nascimentos e genocídios, casamentos e funerais, autodeterminações e prisões, alegrias e desgostos. De forma paradigmática, com uma tremenda bebedeira comemoramos a bebedeira de ontem.
O nosso catálogo é vastíssimo e podemos dar-nos ao luxo de não participar nas comemorações dos séculos dos descobrimentos, das variadas ementas das capitais da cultura, do nascimento de Beethoven ou da inauguração da linha férrea de Lisboa ao Carregado, pois temos ainda de sobra para comemorar.
Quando, por exemplo, nos distribuem a agenda de secretária no princípio do ano e nos atiramos a ela como gato a bofe à procura dos feriados, é todo um manancial de espectáculo comemorativo que nos oferece , quotidianamente, o tesouro histórico da Santa Sé: em 15 de Março, nunca mais me esqueci, festeja-se Santa Conegundes (ignoro porquê mas respeito que se pretenda premiar a coragem de transportar tal nome por uma vida inteira); nos restantes dias há de tudo: confessores (um bom pretexto para os psicanalistas se candidatarem), apóstolos (os doze multiplicaram-se de uma forma para a qual a ciência não tem explicação), bispos e patriarcas (às toneladas), donzelas (embora bastante menos), ascetas, anacoretas e contemplativos (é muito mais espiritual, para a nossa sensibilidade, ouvir mugir o boi do que puxar ao arado), descalços (o que me parece desleal em relação aos calçados, uma vez que, feitas as contas, um par de chanatos deveria custar mais que três dias de trabalho de um camelo), mendicantes (uma esperança para os de hoje conseguirem um lugarzinho na agenda daqui a século e meio), cartuxos (sem consideração, desculpável porque extemporânea, pelos outros tipos de embrulho, em particular os cartuchos e os sacos de plástico), enfim, toda uma corte pluridisciplinar em que não falta o anjo da guarda (nacional republicana incluído). Não ficaria admirado se, vasculhando a fundo, viesse a encontrar uma qualquer Broncolina, virgem e mártir (pudera...) de estatuto ganho na busca infrutífera do sexo dos anjos.
Mas se nos entediarmos pela referência exclusiva a eleitos do credo, podemos saltar para outro tipo de inventário, de leque de opções não menos atractivo: dia do pai (avô também, por inerência da função, se bem que, por vezes, só tenha disso uma vaga ideia), dia da mãe (avó é mãe, embora digam que há só uma), dia da criança (o mais abrangente), dia do fumador (e vice-versa), dia de S. Martinho (o génio da garrafa), dia do coração (peditório), dia da sida (mudar de camisa), dia da saúde (não tomar pastilhas, seja qual for o laboratório), dia da paz (contar espingardas), dia da família (finalmente, estamos todos juntos a ver a telenovela), dia do trabalhador, dia de descanso, dia de trabalho, dia sim dia não, dia após dia, dia de cão, dia da árvore, dia D, dia mundial, nacional, do semanário, da semanada, de pagamento...
Não quero ser maçador e fico-me por aqui. Permitam-me, contudo, que aponte um lapso no rol das festividades - falta o dia da sogra.
Não faz sentido esta ausência, pese embora a nossa atenuante de a mimar no dia da mãe, dele ou dela.
Se, como em tudo, há sogras e sogras, é sempre figura presente, mesmo quando lhe chamamos de santa, com aquela entoação que pretende irritá-la. Cada um vê-la-á a seu modo e, até por isso, merece, em minha opinião, um lugar destacado entre os comemorados.
Quando eu andava na escola, todos os dias eram dias da sogra, no fim da tarde. O anafado e vermelhaço pregoeiro descia pontualmente as escadinhas do bairro com um troante "líiiiinguas da sogra!", arremessado pelo longo funil que lhe servia de amplificador de voz, da mesma cor verde da enorme vasilha que pendurava nos ombros. A garotada, moedinha na mão, tostão para lá, língua da sogra para cá, babava-se com o barquilho estaladiço e acabava a chupar os cotovelos.
Perdeu-se aquela língua da sogra. Fui encontrá-la, mais tarde, diferente, sem beleza, quando, ao serão, a atamancar trabalhos atrasados do liceu, ouvia a família falar da língua viperina desta ou daquela sogra.
Depois, adolescente, a imagem da sogra era a do balde de água fria, atirado sem dó nem piedade às virilhas, quando as fogueiras de S. João levavam o fogo à estopa.
Mais tarde, a sogra, a sogra era a sogra, às vezes confidente, outras, por livre iniciativa, conselheira da minha mulher, de tal maneira que eu não sabia se me deitava com a filha ou com a mãe.
Apesar disso, e também por isso, a minha mulher, passados tantos anos, mantém-se ao meu lado, serena, alicerce e... quase sogra. Sorri, brejeira nos seus pensamentos de menina, e insinua imitar, sem convicção, os baldes de água fria no quase genro (que adora) - um matulão de gangas deslavadas que, nos intervalos (intermináveis) da defesa de duas causas em tribunal, namora, ou devora, já não sei, a pequena. Para fingir ignorar os beijos que se soltam nas nossas costas como pássaros a aprender o voo, entrelaça-me os dedos, de mansinho, cheios de recordações. Quando os ataques deles ultrapassam o fecho da emissão, lembra-me, discretamente, que são horas de dormir. Acorda-me de manhã com um sumo de laranja e um dedo nos lábios para que eu não faça perguntas. Enrosco-me outra vez e fico a ouvir o tilintar distante dos risos do pequeno-almoço na cozinha. Volta para a cama e aquece-me o resto da manhã com sonhos de pernas enleadas.
Entre dois sonhos, decido escrever à Assembleia a propor a inclusão do Dia da Sogra no calendário festivo, o dia das ditosas mães que tais filhas destes.
Mas, quando acordo, definitivamente, esvai-se-me o projecto, alertado pelo risco de vulgarizar a imagem terna da minha Companheira; porque, afinal, de vulgaridades e hipocrisia está o calendário cheio.

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sexta-feira, outubro 18, 2002

LUGARES RESERVADOS, PARA QUÊ?... (CADERNO DE VIAGENS)

Comboio Lisboa - Porto. Há quem lhe chame o comboio dos executivos e dos homens de negócios. Para mim é um comboio cómodo e rápido, dentro do possível e dos possíveis atrasos. A coxia divide cada carruagem numa fila de lugares individuais, de um lado, e de lugares duplos, do outro. Todos eles são numerados e obrigam a reserva prévia, reserva que implica o pagamento de uma taxa incluída no preço final do bilhete.
...a crónica ...

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quinta-feira, outubro 17, 2002

PINGOS DE LAMA NA PELE III

Voltei à turbulência dos locais do despachatacomer. Na mesa ao lado, uma mulher atraente pela curiosidade que pode acender, embora não se saiba se depois continuará acesa. Digo isto porque o par que ela e o companheiro formam é pálido de tédio, parece triste e mortiço, olhos sem luz. Ele mais novo do que ela, parece-me. Fumam os dois. Fumamos os três. Ela de isqueiro caro e recatado. Ele a exibir o relógio e os anéis, vários, um de brasão, tudo na mão direita.
Engulo, tão depressa quanto possível, as batatas fritas de há três dias, o arroz ensopado de gordura e os lombinhos.
Pago e vou-me. Eles ficam como estiveram desde a chegada. Mudos. Não calados mas mudos. Minto: ele ditou a conta ao empregado de mesa e ela falou-me nos olhos antes de eu partir.

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quarta-feira, outubro 16, 2002

"RESIGNADOS, OU CONSCIENTES E ACTIVOS?"

Abissus abissum.
Se acreditarmos que um mal atrai outro mal, percebemos a razão porque é muito raro que a violência não atraia mais violência, geralmente de intensidade redobrada, indiscriminada, generalizada, de alvo difuso ou inocente.
A violência, hoje, envolve-nos como uma neblina, às vezes, mesmo, como um nevoeiro; convivemos em intimidade com ela; é um dado adquirido; tornou-se num lugar comum, tão comum que nos deixamos conduzir placidamente para a comodidade cega do esquecimento de que a violência existe...
Esquecer a violência quotidiana tornou-se num objectivo - mesmo que a utilizemos, mesmo que, nalguns casos que queremos ignorar, nos toque pela porta. Ignorar a violência que se desnuda a cada momento perante quem está exposto ao dia a dia - e quem não está? - faz parte da preocupação de quem quer sentir-se despreocupado.
Fingir que não há violência nos cartazes publicitários que nos manipulam com apelo ao que de mais mau, adormecido e inquestionado, está em nós: a competição de faca na boca entre os Bancos e entre as Seguradoras pela maior fatia de mercado a vampirar, sabendo que os dramas decorrentes das dívidas serão a fonte de receita; a competição entre donas de casa pelo melhor frigorífico a exibir, sabendo que nem sempre há com que o encher; a competição entre automobilistas pelo carro mais, sabendo que a gasolina mal chega para o fim-de-semana e, mesmo assim, usurpando necessidades mais prementes; a competição entre os musculados do sexo, sabendo que o sexo assim vivido é um preservativo imposto que dá pelo nome de impotência.
Fingir que não há violência na visão matinal dos sem abrigo que se escondem dos restos da noite nos restos de caixas e caixotes de cartão, à porta de edifícios onde os negócios prosperam ou o lazer caro alicia os que a ele podem ter acesso.
Fingir que não há violência quando seres humanos esfomeados procuram, como caçadores furtivos, restos de alguma côdea que tenha escapado a cães e gatos nos contentores do lixo.
Fingir que não há violência por detrás dos óculos de sol, em pleno Inverno, que tentam disfarçar a nódoa negra que um punho desbragado fez explodir naquele rosto de mulher.
Fingir que não há violência no choro revoltado de crianças que suplicam um sono necessário, ou a luz do sol a ondular na relva, perante a indiferença dos pais centrocomercial-dependentes.
Fingir que não há violência quando o espaço verde à frente de nossa casa, o espaço dos garotos e da nossa tranquilidade, é atropelado por rodados impúdicos de algum vizinho que não leva o carro para a mesa-de-cabeceira por mera impossibilidade física.
Fingir que não há violência perante a belíssima casa, um álbum de história de famílias, de muitas gerações, agora transformada num montão de ruínas de pedra e dignidade porque o actual proprietário espreita o momento ideal de transformar afectos em tostões.
Fingir que não há violência no palavrão-faca, na buzina-granada, na manobra de alto risco do automobilista que só consegue afirmar-se como vivo num volante potencial de morte.
Fingir que não há violência no encontrão sem reparo, seja no que partilha o transporte colectivo connosco, seja no que partilha a carreira profissional connosco, seja no que partilha a cama connosco.
Fingir que não há violência na obscena exposição de notícias de violência, elas próprias mais violentas do que a violência relatada, nessa enormidade de exploração dos sentimentos para tentar um aumento de audiometrias de televisões e de rádios e de tiragens de jornais, todos eles vendedores de desgraças.
Fingir que não há violência na hipocrisia do discurso dos políticos, falacioso, mentiroso, fraudulento, políticos mais preocupados com os seus interesses pessoais do que com os cidadãos cujos interesses dizem - e deveriam - representar e defender.
Fingir que não há violência no elevado índice de analfabetismo estrutural que tolhe o sentido crítico, relega para o desleixo a reflexão e torna a pessoa joguete de manobras e políticas que pretendem, apenas, manter o estado de coisas - leia-se, os privilégios de uma minoria que há muito perdeu o sentido da solidariedade e de serviço ao seu semelhante, ao seu Povo.
Fingir que não há violência na insegurança no trabalho, já de si precário num mundo em recessão, à procura de balões de soro para sobreviver no caos da desigualdade e da injustiça sociais, num mundo onde o trabalho deixou de ser dignificante para ser alienante, trabalho tornado ainda mais precário por legislação laboral que faz pairar, permanentemente, sobre os braços e a cabeça dos trabalhadores o fantasma do despedimento iminente, individual ou colectivo.
Fingir que não há violência na magreza da maioria das pensões de reforma que mal chegam - e, em muitos casos, não chegam - para pagar os medicamentos e os tratamentos necessários a, ao menos, alguma qualidade de vida no fim da vida.
Fingir que não há violência quando a saúde é considerada mera mercadoria e a doença é tratada em vez de prevenida, seguindo, também aqui, a lógica do cifrão.
Fingir que não há outras e dilacerantes violências?
Fingir que é mentira que um mal pode atrair outro mal...
E, de tanto fingimento, finge-se desconhecer a razão por que a violência eclode quando, onde e da forma que menos se espera...
Se, até agora, tem sido possível fingir, foi porque deixámos que a violência se instalasse como companheira e companhia e que, prepotente, desinstalasse o Amor.
E o Amor esvai-se, doente ele também, sem reforma possível, sem remédio, sem abrigo, esfomeado, sem eira nem beira, escondido, envergonhado, sem saber se pode dar-se, a quem, a quem quer dar-se, tantas vezes esmolado sem eco, de tão universal tão esquecido... como a violência, de tão lugar comum quase esquecida... pólos da mesma linha, linha de Vida mal vivida se o Amor não render a Violência.
Mas, se abissus abissum, também o Amor pode atrair o Amor, do outro lado da estrada... É uma questão de se escolher entre "Resignados, ou conscientes e activos?"...

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