PERCEBER

-Escreva a primeira frase.
-Já está.
-E agora?-Pois é... Difícil o continuar. Ou difícil o começar que é um continuar outra vez, um continuar de novo, um esgotar aquele intervalo de não saber como recomeçar a imposição que assumimos, imposição tanto mais tirana quanto mais é nossa.
Como disse Haroldo Maranhão, do Brasil, "inspiração é camisa suada". Foi nessa necessidade, nessa suada, que me dei conta de que a lama se escondia por debaixo das folhas das videiras, aliviada em mais uma vindima. Recomecei, rotina, em novo Inverno, a queimar fundilhos de calças para fogueiras que não me aqueceram; fogueiras que fugiram pós chaminés de postais, ilustrados, coloridos duma realidade que não há, paga ao peso do oiro que se vende para comprar a coleira ao preço doutros artigos de lixo - não de luxo. Nunca aprendi tal fumo, mesmo branco, nem as chaminés da mesma cor. Nem aprendi as queimadelas do borralho fugidio. Concluí que sou um psicopata ou, se melhor, menos socialmente comprometedor para os amigos, os professores, os familiares, os patrões, os cobradores de impostos, os alfandegários, os outros todos, sem esquecer os governantes à minha custa de impostos, um analfabeto social. Quero dizer, não sou capaz de fazer leituras das tramóias que leio e oiço em todo o lado. No entanto, resta-me uma consolação: sei, porque vejo, que a lama se esconde por debaixo das folhas das videiras, aliviadas por mais uma vindima.